22 de setembro de 2026

A história do movimento psicanalítico a partir de seus principais autores e algumas de suas contribuições

por Andressa Vieira

Este post tem como objetivo dar ao leitor um panorama geral da história da psicanálise, com seus principais autores e suas maiores contribuições, assim como apresentar os caminhos contemporâneos do movimento psicanalítico. Não tenho a pretensão de abordar sua história completa, tendo em vista que a psicanálise existe há mais de 100 anos e conta com uma lista colossal de autores, teorias e abordagens – e sim de introduzir o tema, de modo que você possa compreender a análise pessoal de uma forma mais ampla. Vamos lá?

A história do movimento psicanalítico

Você já ouviu algumas pessoas serem chamadas de “histéricas”, “neuróticas” ou “paranoicas”, certo? Se essas expressões são amplamente utilizadas atualmente, isso se deve às observações clínicas e teóricas de Sigmund Freud, que o levaram a criar a psicanálise, um método terapêutico de investigação do inconsciente. 

Quem foi Freud?

Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, foi um médico neurologista e psiquiatra. Nascido em Freiberg, na Morávia, mudou-se para Viena aos 4 anos de idade, onde se graduou em medicina em 1886. Criou o “método de cura pela fala” (que viria a se tornar a psicanálise) por volta de 1900 e, em 1908, formou, com um grupo de discípulos, a Sociedade Psicanalítica de Viena (inicialmente conhecida como “Reunião das quartas-feiras”), que garantiu a continuidade de seu legado. 

Freud e seus mestres

Josef Breuer (1842-1925), médico, fisiologista e o nome mais relevante da hipnose clínica na época, foi o primeiro grande mestre de Freud, com quem escreveu o livro “Estudos sobre a histeria”, baseado no famigerado caso clínico de Anna O. (pseudônimo de Bertha Pappenheim) – uma jovem austríaca de família rica que apresentava sintomas como alucinações, paralisia no rosto, no braço e na perna, esquecimento de sua língua nativa, emudecimento, incapacidade de beber líquidos, entre outros. Breuer tentou tratá-la por meio da hipnose, mas, como obteve resultados caóticos, optou por incentivá-la a falar o que viesse à mente – o que aliviou seus sintomas e criou as bases para o que viria a se tornar o método de associação livre. Freud e Breuer discordavam em relação às causas do transtorno de Anna: enquanto Breuer acreditava que elas seriam fisiológicas, Freud defendia sua relação com os elementos psíquicos e a sexualidade.

Outras grandes influências de Freud foram Jean-Martin Charcot (1825-1893), um psiquiatra que desenvolvia um tratamento pioneiro da histeria por meio da hipnose, e com quem aprendeu sobre o poder das forças mentais escondidas da percepção consciente, e Rudolf Chrobak (1843-1910), médico ginecologista de renome que realizou alguns tratamentos em conjunto com Freud – como o de uma mulher que sofria de estranhos ataques de ansiedade, cuja origem, segundo Chrobak, estaria na impotência do marido da paciente, que o impedia de consumar o casamento. 

Como surgiu a psicanálise?

Freud recebia, em seu consultório, pacientes que não obtinham sucesso com os tratamentos médicos tradicionais, e que, ao se submeterem a exames clínicos, não apresentavam relações entre suas doenças e os sintomas físicos correspondentes. Ele, então, escutava os relatos desses pacientes sobre seus sintomas, e percebeu que essa escuta proporcionava acolhimento e o alívio do sofrimento deles. O trabalho de Freud demonstrou que a medicina – e até mesmo a psicologia da época – não era capaz de curar todas as manifestações do sofrimento humano, e que o acolhimento poderia exercer um papel importante no tratamento de muitas enfermidades. 

Os seguidores de Freud

À medida que Freud obtinha sucesso no tratamento dos sintomas de seus pacientes por meio da psicanálise, começou a buscar a expansão do tema para além do círculo judaico, do qual fazia parte. Com isso, conquistou muitos seguidores – listamos aqui alguns dos principais:

  • Sándor Ferenczi (1873-1933) nasceu na Hungria e formou-se em medicina em Viena, onde fez análise com Freud. Posteriormente, retornou a seu país, onde foi nomeado Ministro da Saúde. Seus principais legados foram o conceito de introjeção simbólica (processo simbólico de absorção do outro); a técnica ativa, em que o psicanalista também fala de suas experiências; e uma atenção especial à relação entre questões traumáticas e o sofrimento psíquico, proporcionada pela sua atuação como médico do exército húngaro durante a Primeira Guerra Mundial.
  • Karl Abraham (1877-1925) trocava cartas com Freud, e fez com que a psicanálise ganhasse relevância na Alemanha até o início da Segunda Guerra Mundial. Além de patrocinar o primeiro instituto de formação de psicanalistas – a Policlínica de Berlim, em 1920 –, Abraham implantou a clínica freudiana no tratamento de distúrbios psiquiátricos, como a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva.
  • Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço, começou a trocar cartas com Freud ao tomar conhecimento da teoria do inconsciente. Como Jung trabalhava em um hospital psiquiátrico, Freud viu nisso uma oportunidade para difundir a psicanálise.  Os dois trabalharam juntos de 1907 a 1914, quando se separaram devido a divergências: enquanto Freud acreditava que existem duas energias – a pulsão sexual, cuja fonte é a libido; e a pulsão de autoconservação, cuja fonte é o interesse -, Jung afirmava que só existe uma energia psíquica no indivíduo, que é a libido. Com a separação, Jung criou uma nova linha: a psicologia analítica, à qual agregou diversas teorias que a tornaram independente da psicanálise freudiana.
  • Eugen Bleuler (1857-1939), psiquiatra suíço, também trocava cartas com Freud, e trouxe para a psicanálise o entendimento da esquizofrenia, anteriormente chamada de “demência precoce”, por perceber que essa condição não era uma demência, e não estava limitada a indivíduos jovens. Jung e Abraham foram alguns de seus assistentes.
  • Anna Freud (1895-1982), psiquiatra e pedagoga austríaca e filha de Sigmund, é considerada uma das principais seguidoras de seu pai, tendo dado continuidade a seu trabalho. Anna focou seu estudo principalmente no tratamento psicanalítico de crianças, acrescentando à psicanálise um olhar para seu papel na educação, assim como para os mecanismos de defesa – usados pelo inconsciente para proteger a mente diante da angústia que alguns pensamentos e sentimentos provocam, e sistematizados em seu livro “O ego e os mecanismos de defesa”.  

 

A Segunda Guerra Mundial e a divisão em dois blocos

Com a subida de Hitler ao poder e a ameaça nazista, muitos psicanalistas judeus se viram obrigados a mudar de seus países; um de seus destinos era a Inglaterra, para onde Freud migrou junto à sua filha Anna em 1938. 

Com a chegada de Anna e seu pai ao país, uma série de conflitos emergiram a partir de suas divergências com Melanie Klein – psicanalista austríaca e analisanda de Ferenczi e de Abraham, que se mudara para Londres em 1926. Enquanto Anna tinha uma concepção “pedagógica” da psicanálise infantil e tratava as crianças de forma similar aos adultos, Melanie acreditava que as crianças não tinham destreza suficiente para serem submetidas à análise e interpretação do inconsciente – por isso, criou a ludoterapia, em que tratava as crianças por meio de jogos e da observação das psicoses primitivas, segundo ela, presentes em todas as crianças.

As visões conflitantes de Anna e Melanie sobre a psicanálise infantil levaram os analistas da Sociedade Britânica de Psicanálise a optarem pela abordagem de uma ou de outra, criando dois blocos distintos.

 

O Grupo dos Independentes

No centro do intenso conflito entre Anna e Melanie, Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, optou por desvincular-se dos pensamentos das duas analistas, criando o Grupo dos Independentes (ou “Grupo do Meio”).  Desenvolveu um conjunto de novas intervenções clínicas e teóricas, baseadas na importância do cuidado e da atenção da figura materna para o desenvolvimento do ser humano. Winnicott foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, e fundador da psicanálise de crianças na Grã-Bretanha.  

Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979), psiquiatra indiano-britânico, deu continuidade ao trabalho de Winnicott no Grupo dos Independentes. Ele discordava de Melanie Klein, que fora sua supervisora, em relação à psicoterapia de grupo – enquanto Klein acreditava que o trabalho em grupos não poderia ser associado ao trabalho analítico, Bion defendia que ambos poderiam coexistir e se relacionar. 

Lacan e o retorno a Freud

Mais tarde, na França, Jacques Lacan (1901-1981) fez um retorno às teorias de Freud, agregando a elas suas próprias contribuições. Lacan via o movimento psicanalítico posterior a Freud como uma deturpação da psicanálise, que estava, naquele momento, mais próxima de uma psicologia do inconsciente do que de uma prática relacionada à ética do desejo e manifestada a partir da linguagem verbal. Por isso, Lacan propôs o entendimento da psicanálise a partir da linguagem verbal, da dialética e da reconstrução da teoria do sujeito. Além disso, repensou o modelo de formação dos psicanalistas, tornando-o menos rígido, e reestruturou a duração da sessão terapêutica, propondo que o analista determine o fim da sessão de acordo com cada situação.

As escolas de psicanálise e o pluralismo

No início da história da psicanálise, os analistas escolhiam uma única linha de trabalho – ou Escola de Psicanálise -, pois a união com outras correntes não era vista com bons olhos. Com o tempo, percebeu-se que as técnicas que utilizavam não eram suficientes para tratar alguns casos, o que, junto com a dispersão geográfica – que fez com que existisse certa adaptação aos pensamentos e formas de trabalho locais –, resultou em uma busca pela combinação de técnicas, levando a um pluralismo teórico.

Christopher Bollas (1943- ), psicanalista norte-americano contemporâneo, se destaca quando o assunto é esse pluralismo. Em resposta às guerras entre as escolas de psicanálise, Bollas defende que, durante sua formação, os analistas devem selecionar e estudar a obra dos autores que fundaram essas escolas, assim como suas influências e seus sucessores, paralelamente ao seu próprio trabalho de análise pessoal e à supervisão. Para Bollas, tudo é uma questão de ponto de vista, e todas essas realidades devem ser articuladas e inscritas no comportamento de cada analista. 

Caminhos contemporâneos

Não temos como prever os próximos acontecimentos ou o surgimento de novas teorias relacionadas à psicanálise – mas os caminhos que ela vêm tomando me levam a crer que o pluralismo terá grande destaque. Como sempre digo, as linhas de psicanálise são como ferramentas na caixa de um analista, que pode escolher o que mais se adequa às questões e à personalidade de cada indivíduo. 

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