Este post tem como objetivo dar ao leitor um panorama geral da história da psicanálise, com seus principais autores e suas maiores contribuições, assim como apresentar os caminhos contemporâneos do movimento psicanalítico. Não tenho a pretensão de abordar sua história completa, tendo em vista que a psicanálise existe há mais de 100 anos e conta com uma lista colossal de autores, teorias e abordagens – e sim de introduzir o tema, de modo que você possa compreender a análise pessoal de uma forma mais ampla. Vamos lá?
Você já ouviu algumas pessoas serem chamadas de “histéricas”, “neuróticas” ou “paranoicas”, certo? Se essas expressões são amplamente utilizadas atualmente, isso se deve às observações clínicas e teóricas de Sigmund Freud, que o levaram a criar a psicanálise, um método terapêutico de investigação do inconsciente.
Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, foi um médico neurologista e psiquiatra. Nascido em Freiberg, na Morávia, mudou-se para Viena aos 4 anos de idade, onde se graduou em medicina em 1886. Criou o “método de cura pela fala” (que viria a se tornar a psicanálise) por volta de 1900 e, em 1908, formou, com um grupo de discípulos, a Sociedade Psicanalítica de Viena (inicialmente conhecida como “Reunião das quartas-feiras”), que garantiu a continuidade de seu legado.
Josef Breuer (1842-1925), médico, fisiologista e o nome mais relevante da hipnose clínica na época, foi o primeiro grande mestre de Freud, com quem escreveu o livro “Estudos sobre a histeria”, baseado no famigerado caso clínico de Anna O. (pseudônimo de Bertha Pappenheim) – uma jovem austríaca de família rica que apresentava sintomas como alucinações, paralisia no rosto, no braço e na perna, esquecimento de sua língua nativa, emudecimento, incapacidade de beber líquidos, entre outros. Breuer tentou tratá-la por meio da hipnose, mas, como obteve resultados caóticos, optou por incentivá-la a falar o que viesse à mente – o que aliviou seus sintomas e criou as bases para o que viria a se tornar o método de associação livre. Freud e Breuer discordavam em relação às causas do transtorno de Anna: enquanto Breuer acreditava que elas seriam fisiológicas, Freud defendia sua relação com os elementos psíquicos e a sexualidade.
Outras grandes influências de Freud foram Jean-Martin Charcot (1825-1893), um psiquiatra que desenvolvia um tratamento pioneiro da histeria por meio da hipnose, e com quem aprendeu sobre o poder das forças mentais escondidas da percepção consciente, e Rudolf Chrobak (1843-1910), médico ginecologista de renome que realizou alguns tratamentos em conjunto com Freud – como o de uma mulher que sofria de estranhos ataques de ansiedade, cuja origem, segundo Chrobak, estaria na impotência do marido da paciente, que o impedia de consumar o casamento.
Freud recebia, em seu consultório, pacientes que não obtinham sucesso com os tratamentos médicos tradicionais, e que, ao se submeterem a exames clínicos, não apresentavam relações entre suas doenças e os sintomas físicos correspondentes. Ele, então, escutava os relatos desses pacientes sobre seus sintomas, e percebeu que essa escuta proporcionava acolhimento e o alívio do sofrimento deles. O trabalho de Freud demonstrou que a medicina – e até mesmo a psicologia da época – não era capaz de curar todas as manifestações do sofrimento humano, e que o acolhimento poderia exercer um papel importante no tratamento de muitas enfermidades.
À medida que Freud obtinha sucesso no tratamento dos sintomas de seus pacientes por meio da psicanálise, começou a buscar a expansão do tema para além do círculo judaico, do qual fazia parte. Com isso, conquistou muitos seguidores – listamos aqui alguns dos principais:
Com a subida de Hitler ao poder e a ameaça nazista, muitos psicanalistas judeus se viram obrigados a mudar de seus países; um de seus destinos era a Inglaterra, para onde Freud migrou junto à sua filha Anna em 1938.
Com a chegada de Anna e seu pai ao país, uma série de conflitos emergiram a partir de suas divergências com Melanie Klein – psicanalista austríaca e analisanda de Ferenczi e de Abraham, que se mudara para Londres em 1926. Enquanto Anna tinha uma concepção “pedagógica” da psicanálise infantil e tratava as crianças de forma similar aos adultos, Melanie acreditava que as crianças não tinham destreza suficiente para serem submetidas à análise e interpretação do inconsciente – por isso, criou a ludoterapia, em que tratava as crianças por meio de jogos e da observação das psicoses primitivas, segundo ela, presentes em todas as crianças.
As visões conflitantes de Anna e Melanie sobre a psicanálise infantil levaram os analistas da Sociedade Britânica de Psicanálise a optarem pela abordagem de uma ou de outra, criando dois blocos distintos.
No centro do intenso conflito entre Anna e Melanie, Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, optou por desvincular-se dos pensamentos das duas analistas, criando o Grupo dos Independentes (ou “Grupo do Meio”). Desenvolveu um conjunto de novas intervenções clínicas e teóricas, baseadas na importância do cuidado e da atenção da figura materna para o desenvolvimento do ser humano. Winnicott foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, e fundador da psicanálise de crianças na Grã-Bretanha.
Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979), psiquiatra indiano-britânico, deu continuidade ao trabalho de Winnicott no Grupo dos Independentes. Ele discordava de Melanie Klein, que fora sua supervisora, em relação à psicoterapia de grupo – enquanto Klein acreditava que o trabalho em grupos não poderia ser associado ao trabalho analítico, Bion defendia que ambos poderiam coexistir e se relacionar.
Mais tarde, na França, Jacques Lacan (1901-1981) fez um retorno às teorias de Freud, agregando a elas suas próprias contribuições. Lacan via o movimento psicanalítico posterior a Freud como uma deturpação da psicanálise, que estava, naquele momento, mais próxima de uma psicologia do inconsciente do que de uma prática relacionada à ética do desejo e manifestada a partir da linguagem verbal. Por isso, Lacan propôs o entendimento da psicanálise a partir da linguagem verbal, da dialética e da reconstrução da teoria do sujeito. Além disso, repensou o modelo de formação dos psicanalistas, tornando-o menos rígido, e reestruturou a duração da sessão terapêutica, propondo que o analista determine o fim da sessão de acordo com cada situação.
No início da história da psicanálise, os analistas escolhiam uma única linha de trabalho – ou Escola de Psicanálise -, pois a união com outras correntes não era vista com bons olhos. Com o tempo, percebeu-se que as técnicas que utilizavam não eram suficientes para tratar alguns casos, o que, junto com a dispersão geográfica – que fez com que existisse certa adaptação aos pensamentos e formas de trabalho locais –, resultou em uma busca pela combinação de técnicas, levando a um pluralismo teórico.
Christopher Bollas (1943- ), psicanalista norte-americano contemporâneo, se destaca quando o assunto é esse pluralismo. Em resposta às guerras entre as escolas de psicanálise, Bollas defende que, durante sua formação, os analistas devem selecionar e estudar a obra dos autores que fundaram essas escolas, assim como suas influências e seus sucessores, paralelamente ao seu próprio trabalho de análise pessoal e à supervisão. Para Bollas, tudo é uma questão de ponto de vista, e todas essas realidades devem ser articuladas e inscritas no comportamento de cada analista.
Não temos como prever os próximos acontecimentos ou o surgimento de novas teorias relacionadas à psicanálise – mas os caminhos que ela vêm tomando me levam a crer que o pluralismo terá grande destaque. Como sempre digo, as linhas de psicanálise são como ferramentas na caixa de um analista, que pode escolher o que mais se adequa às questões e à personalidade de cada indivíduo.
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